TEMPORALIDADES IMBRICADAS: O PROJETO ‘INDÚSTRIAS FAMILIARES DOS IMIGRANTES’ E SEUS DISCURSOS

Michele Gonçalves Cardoso

Resumo


Um museu é uma instituição onde os tempos são entrelaçados. No museu, que tradicionalmente pode ser reconhecido como de tipologia histórica, os laços e os nós que o compõem não denotam apenas as temporalidades retratadas, experimentadas ou ressignificadas pelo processo de exposição e de interação com o público, mas demonstram o modo como um dado presente mobilizou certo passado, e, nesse exercício, elaborou projeções para o futuro. Podemos pensar que os objetos expostos nessas instituições objetivam provocar a percepção do efeito da dimensão temporal nas relações sociais, ou seja, tornam-se lugares de aprendizagem do tempo histórico. (PACHECO, 2015, p 1). Entendendo o museu como local imbricado por múltiplas temporalidades e percebendo esse espaço como articulador da dimensão temporal, os entrelaçamentos que se estabelecem imaginariamente entre as três temporalidades – Passado, Presente, Futuro – produzem diferentes sensações de tempo, em diferentes épocas. E, “é a tensão entre experiência e expectativa que, de uma forma sempre diferente, suscita novas soluções, fazendo surgir o tempo histórico.” (KOSELLECK, 2006, p. 313). Com base nesses referenciais nos propusemos a analisar a criação do atual Museu ao Ar Livre Princesa Isabel, localizado na cidade de Orleans. Inicialmente o projeto museal elaborado pelo Pe. João Leonir Dall`Alba era intitulado “Indústrias familiares dos imigrantes” e foi submetido para a avaliação do Centro Nacional de Referência Cultural (CNRF), sendo aprovado em 1977. O projeto é atravessado por múltiplas temporalidades, pretendendo representar ‘o passado’ da colonização da Colônia Grão-Pará – e de modo geral de todas as colônias sul catarinenses – difundindo concepções de etnicidade, trabalho e religiosidade. O acervo coletado e produzido no Museu está fundamentado na perspectiva do ‘imigrante industrioso’ cunhando dessa forma, um perfil de colonizador e de colônia que reverbera no tempo presente. Sendo assim, nosso objetivo foi analisar, por meio de pesquisas na documentação salvaguardada no Centro de Documentação Histórica Plinío Benício, os trâmites de criação do Museu e os processos de coleta e instalação da instituição, observando como o projeto atendia aos interesses do CNRF, e como a instituição foi fundamental para cunhar elementos identitários para os descendentes de imigrantes da cidade de Orleans e de toda a região – ação motivada também pelo contexto comemorativo dos centenários de imigração –, já que a partir do acervo coletado neste Museu, objetos que remetem as práticas de trabalho, por exemplo, tornaram-se acervos obrigatórios nas instituições museais inauguradas posteriormente, em todo o sul catarinense.
Palavras – chave: Identidades, Etinicidade, Trabalho, Museu.


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