O CORPO NEGRO COMO SIGNO DO NÃO-SER: UMA LEITURA DO DISPOSITIVO DE RACIALIDADE EM SUELI CARNEIRO
Resumo
Este resumo expandido analisa o conceito de corpo na obra Dispositivo de Racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser (CARNEIRO, 2023), com o problema de pesquisa: como o corpo negro é produzido como signo do não-ser pelo dispositivo de racialidade na modernidade ocidental? O objetivo geral é compreender a centralidade do corpo na arquitetura conceitual de Carneiro, ao passo que os objetivos específicos consistem em: examinar a historicidade do corpo negro como memória da escravidão e alvo da pedagogia racial; explorar as articulações entre dispositivo de racialidade, biopoder, necropolítica e epistemicídio; avaliar as consequências ontológicas da redução do corpo negro ao signo do não-ser.
A metodologia é de natureza bibliográfica e crítica, articulando a obra de Carneiro a referenciais teóricos como Foucault (dispositivo, biopolítica), Fanon (zona do não-ser), Mbembe (necropolítica) e Mills (contrato racial), em diálogo interdisciplinar entre filosofia, direito e estudos decoloniais.
Os resultados indicam que o corpo negro é, em Carneiro, suporte de uma memória histórica transgeracional, pois carrega a “memória d’alma da escravidão herdada de minha ancestralidade e, antes dela, das representações negativas [...] associadas ao meu corpo negro” (CARNEIRO, 2023, p. 8). Simultaneamente, o corpo é pedagógico: “as representações associadas ao meu corpo têm sido reiteradas pelos séculos por meio dos aparelhos escolares” (CARNEIRO, 2023, p. 9), o que desloca o debate do preconceito individual para a engenharia social.
No plano genealógico, Carneiro mostra como o dispositivo de racialidade opera em continuidade com o de sexualidade, mas ampliando sua lógica: “o corpo funciona como marca dos valores sociais, nele a sociedade fixa seus sentidos e valores. Socialmente, o corpo é um signo” (CARNEIRO, 2023, p. 28). O corpo branco burguês é instaurado como padrão ontológico, e o corpo negro, como exterioridade inferiorizada.
Ao analisar o biopoder, Carneiro evidencia que o racismo é condição de possibilidade para o governo diferencial da vida e da morte: “agora é possível saber que a morte tem cor” (CARNEIRO, 2023, p. 77). A seletividade racial se exprime tanto no abandono (mulheres negras submetidas à mortalidade materna e ao controle reprodutivo) quanto na eliminação direta (homens negros vítimas da letalidade policial e do encarceramento). Dialogando com Mbembe (2018), a autora demonstra que a biopolítica desliza para a necropolítica quando o corpo negro é administrado como inimigo interno.
Após a abolição, o dispositivo garantiu a docilização do corpo branco para o trabalho livre, enquanto corpos negros foram relegados ao desemprego, à marginalidade e à morte lenta (CARNEIRO, 2023, p. 76–80). A consequência mais profunda, entretanto, é ontológica: “o negro chega antes da pessoa, o negro chega antes do profissional, o negro chega antes do gênero, o negro chega antes do título universitário” (CARNEIRO, 2023, p. 125–126). O corpo negro, nesse sentido, não é apenas biológico, mas signo do não-ser, interditado como sujeito pleno.
Conclui-se que Carneiro formula uma teoria radical do corpo como campo de inscrição da racialidade. O corpo negro é o alvo primário do dispositivo de racialidade e, ao mesmo tempo, o signo social que estabiliza a divisão ontológica entre ser e não-ser. O desafio ético-político contemporâneo consiste em desarmar esse dispositivo e reinscrever o corpo negro como sujeito integral de direitos, saberes e criação.
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